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terça-feira, 2 de março de 2010

Amor, de Clarice Lispector




Clarice é uma das escritoras que mais gosto e este é um dos contos que eu sempre trabalho em classe. Atualmente seus textos estão dominando o mundo virtual e é comum encontrarmos citações de Clarice em orkut, twitter e etc. Acredito que esse fenômeno deve ser aproveitado em sala de aula.


Boa Leitura!


Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.

Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.

Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.

Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.

O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.

A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.

O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.

Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.

Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.

Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.

A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.

O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.



Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.

Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.

Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.

A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.

De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.

Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.

Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.

Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.

Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.

Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.

Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.




Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.

Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.

Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?

Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.

Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.

Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.

Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.

Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.

Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.

Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.

— O que foi?! Gritou vibrando toda.

Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:

— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.

Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.

— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! Disse ela.

— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.

Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade.

E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.



1. No começo do conto, o narrador traça um perfil da personagem Ana. Quem era ela? Como era sua vida?


2. Em que momento do dia Ana corria o risco de uma crise existencial?


3. Que fato ocorrido durante a viagem de bonde provoca uma crise em Ana, alterando-a profundamente?


4. A rotina do dia-a-dia, tão bem administrada por Ana, era como uma rede de proteção contra o inesperado da vida. Que objeto usado por Ana simboliza essa proteção aparente que ela teceu para si mesma? E o que podem representar os ovos quebrados no bonde?

Capitães da Areia, de Jorge Amado





Publicado em 1937, o livro retrata a vida de menores abandonados, os "capitães da areia", nome pelo qual eram conhecidos os "meninos de rua" na cidade de Salvador dos anos 30.
Retrata-os os meninos como moleques atrevidos, malandros, espertos, famintos, ladrões, agressivos, falsos, soltos de língua, carentes de afetos, de instrução, de comida.
O livro é dividido em três partes. Antes delas, no entanto, vem uma seqüência de pseudo-reportagens, que caracterizam-nos e mostram diversas visões sobre o caso.


Primeira parte:

Conta algumas histórias quase independentes sobre alguns dos principais Capitães de Areia (o grupo chegava a quase cem, morando num trapiche abandonado, mas tinha líderes).
O ápice da primeira parte vem em dois momentos: quando os meninos se envolvem com um carrossel mambembe que chegou na cidade, e experimentam as sensações infantis; e quando a varíola ataca a cidade e acaba matando um deles, apesar da tentativa do padre José Pedro em ajudá-los, e tendo grandes embaraços por causa disso.


Segunda parte:

Sub-titulada de "Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos", relata a história de amor que surge quando a menina Dora torna-se a primeira "Capitã da Areia". Apesar de inicialmente os garotos tentarem estuprá-la, ela torna-se qual uma mãe ou irmã para todos.
Ela e Pedro são capturados e muito castigados. Conseguindo fugir, bastante enfraquecidos, amam-se pela primeira vez numa praia, e ela morre - episódio que marca o começo do fim para os principais membros do grupo.


Terceira parte:

Mostra a desintegração dos líderes. Sem-Pernas se mata antes de ser capturado pela polícia que odeia; Professor parte para o Rio de Janeiro onde torna-se um pintor de sucesso, entristecido com a morte de Dora; Gato se torna uma malandro de verdade, abandonando eventualmente sua amante Dalva, e passando por Ilhéus; Pirulito se torna frade; Padre José Pedro finalmente consegue uma paróquia no interior, e vai para lá ajudar os desgarrados do rebanho do Sertão; Volta Seca se torna um cangaceiro do grupo de Lampião e mata mais de 60 soldados antes de ser capturado e condenado; João Grande torna-se marinheiro; Boa-vida continua sua vida de capoeirista e malandro; Pedro Bala, cada vez mais fascinado com as histórias de seu pai sindicalista, vai se envolvendo com os doqueiros e finalmente os Capitães de Areia ajudam numa greve. Pedro Bala abandona a liderança do grupo, mas antes os transforma numa espécie de grupo de choque. Assim Pedro Bala deixa de ser o líder dos Capitães de Areia e se torna um líder revolucionário comunista.


Personagens:

•Pedro Bala, o líder, uma espécie de pai para os garotos, mesmo sendo tão jovem quanto os outros, e depois descobre ser filho de um líder sindical morto durante uma greve;
•Volta Seca, afilhado de Lampião, que tem ódio das autoridades e o desejo de se tornar cangaceiro;
•Professor, que lê e desenha vorazmente, sendo muito talentoso;
•Gato, que com seu jeito malandro acaba conquistando uma prostituta, Dalva;
•Sem-Pernas, o garoto coxo que serve de espião se fingindo de órfão desamparado (e numa das casas que vai é bem acolhido, mas trai a família ainda assim, mesmo sem querer fazê-lo de verdade);
•João Grande, o "negro bom" como diz Pedro Bala, segundo em comando;
•Querido-de-Deus, um capoeirista que é só amigo do grupo;
•Pirulito, tem grande fervor religioso.
•Dora, parecia uma mulherzinha, era muito séria, cuidou de sua mãe quando esta estava doente e depois da morte de sua mãe cuidou de seu irmão, Zé Fuinha; quase foi estuprada pelos meninos Capitães de Areia, mas foi salva por João Grande, Professor e Pedro Bala, que depois percebeu que ela era apenas uma menina; sendo assim, entrou para o grupo dos Capitães de Areia e logo se apaixonou por Pedro Bala; quando os dois foram pegos pela polícia, ela é levada para o orfanato e ele para o reformatório, logo conseguiram fugir e antes de morrer, ela se entregou para Pedro; quando ela morre o grupo começa a se desfazer, cada um vai para um lado;


Análise:

No fundo, o que o SR: Jorge Amado tenta passar, é que cada menino dos Capitães de Areia tenta preencher o vazio de carinho e amor de mãe como pode. Pirulito descobriu Deus para lhe transmitir um pouco desse carinho; Gato descobriu Dalva, uma mulher já feita, muito mais velha que ele, que lhe dava prazer todas as noites; Volta-Seca no seu padrinho, Lampião, que lhe permitia sonhar que um dia se juntaria a ele e juntos lutariam contra o sistema; e assim por diante. Contudo, a realidade é que por mais que eles tentem, esse carinho de mãe não pode ser substituído e que há sempre aquele espaço vazio nos seus corações, o que os leva a continuar a conduzir a vida, na maior parte dos casos, pela criminalidade. Mostra também que o problema desses meninos faz parte da nossa realidade e que não são todas as pessoas que se preocupam com isso, tratando esses meninos como delinqüentes.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Semana de Arte Moderna

1. Onde e quando aconteceu a Semana de Arte Moderna?
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2. O que marca a Semana de Arte Moderna na literatura brasileira?
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3. Cite dois artistas participantes da Semana na:
a) Música: b) Literatura: c) Pintura:
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4. Cite dois livros publicados antes da realização da SAM, que de uma forma ou de outra, motivaram a realização da mesma.
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5. Além de declamação de poesia, o que mais foi apresentado nesses três dias?
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6. Cite os dois objetivos principais da Semana de Arte Moderna.
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7. Qual o nome do poema de Manuel Bandeira lido na SAM por Ronald de Carvalho?
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8. Em dezembro de 1917, Anita Malfatti realizou em São Paulo uma exposição de arte com cinqüenta e dois trabalhos que apresentavam forte tendência expressionista, dentre os quais “A estudante russa”.



Sobre a obra, é correto afirmar:

a) O tratamento realista que recebeu tornou-a alvo de críticas mordazes dos modernistas durante a exposição de 1917.
b) Revela o principal objetivo dos artistas modernistas brasileiros: a elaboração de obras de difícil compreensão para o público.
c) É resultado da busca de padrões acadêmicos europeus para a reprodução da natureza com o máximo de objetividade e beleza.
d) Marca o rompimento com o belo natural na arte brasileira, refletindo a liberdade do artista na interpretação do mundo.
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9. Na década de 20, anos pioneiros do modernismo, artistas como Brecheret, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral expressaram em suas obras a visão de mundo daquele período. Observe as reproduções a seguir dos artistas citados e assinale a alternativa que corresponde aos conteúdos expressos pelos artistas.



a) Potência e força; malícia e sensualidade; brasilidade e imaginário popular.
b) Brasilidade e imaginário popular; religiosidade e espiritualidade; malícia e sensualidade.
c) Malícia e sensualidade; suavidade e lirismo; dramaticidade e ansiedade.
d) Brejeirice e volúpia; devoção e espiritualidade; potência e força.

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10. Assinale a alternativa que indica o nome do(a) artista que ilustrou a capa, reproduzida abaixo, para o Catálogo da Semana de Arte Moderna de 1922.
a) Emiliano Di Cavalcanti b) Mario de Andrade c) Victor Brecheret d) Anita Malfatti


11. Sobre a importância da SAM, analise os itens a seguir:
I. Representou a confluência de várias tendências de renovação;
II. Conseguiu chamar a atenção dos meios artísticos de todo o país e aproximar artistas com idéias modernistas que se encontravam dispersos.
III. Permitiu a troca de idéias e de técnicas, o que ampliaria os diversos ramos artísticos e os atualizaria em relação ao que se fazia na Europa. Estão corretas: a) I e II b) II e III c) I, II e III d) I e III
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12. Observe a obra “A Negra” de Tarsila do Amaral e responda às questões A e B.
A - Em “A Negra”, Tarsila estabelece um diálogo entre uma poética construtiva européia e uma das vertentes do modernismo brasileiro. São elas, respectivamente:
a) Cubismo e Movimento Pau-Brasil. b) Futurismo e Movimento Pau-Brasil.
c) Surrealismo e Movimento Antropofágico. d) Impressionismo e Movimento Antropofágico.

B - A partir da observação da figura, é correto afirmar que a obra apresenta:
a) Preocupação em retratar fielmente a realidade humana e social do país através de um tratamento formal naturalista.
b) Um afastamento da realidade física e humana do Brasil, a partir da adesão aos postulados e procedimentos das vanguardas históricas européias.
c) Características conservadoras contrárias às conquistas estéticas do Movimento Modernista.
d) Uma relação entre imaginário popular e procedimentos plásticos extraídos das vanguardas européias.


13. Sobre os manifestos ocorridos no Brasil após a SAM, enumere-os de acordo:
1. Pau-Brasil 2. Verde-Amarelismo 3. Manifesto Regionalista 4. Antropofagia
1. ( ) Início quando Oswald de Andrade lança o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”.
2. ( ) Alguns participantes: Tarsila, Oswald, Mário de Andrade, Raul Bopp
3. ( ) Parte-se para a idolatria do tupi e elege-se a anta como símbolo nacional.
4. ( ) Objetivo desenvolver o sentimento de unidade do Nordeste dentro dos novos valores do Modernismo.
5. ( ) Apresenta uma proposta de literatura vinculada à realidade brasileira, a partir de uma redescoberta do Brasil.
6. ( ) Criticava o nacionalismo “afrancesado” de Oswald de Andrade e apresentava um nacionalismo ufanista.
7. ( ) Aprofunda e amplia as propostas presentes em Pau-Brasil.
8. ( ) Participantes: Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Paulo Prado.
9. ( ) Inspirado no “Abaporu”.
10. ( ) “— A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. como somos.”
11. ( ) Proposta: trabalhar em prol dos interesses da região: social, econômico e cultural.
12. ( ) Propunham a devoração da cultura estrangeira, porém sem perder nossa identidade cultural.
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14. A polêmica Semana de 22, os escândalos no Teatro Municipal de São Paulo e as críticas ferozes levaram artistas e
intelectuais modernistas a criarem veículos representativos e de disseminação do ideário estético do Movimento
Modernista Brasileiro. Assinale a capa da publicação que registra o momento inicial de articulação daquele ideário.

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15. “Carnaval em Madureira” é parte integrante da fase Pau-Brasil de Tarsila do Amaral. Com base na obra e nos conhecimentos sobre o “Manifesto Pau-Brasil”, de Oswald de Andrade, é correto:
a) A obra de Tarsila do Amaral reflete profunda tristeza acerca da dura vida na favela, sendo esta mesma tristeza professada no “Manifesto Pau-Brasil”.
b) A Torre Eiffel no meio da favela reforça uma das idéias contidas no “Manifesto Pau-Brasil”: a arte européia sempre foi superior à arte brasileira.
c) Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade propõem uma arte ligada às raízes culturais brasileiras, não perdendo de vista a expressão artística moderna.
d) Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade criticam os costumes da população brasileira, vistos como fatores de atraso cultural.

16. Este quadro do repertório da arte brasileira deste século, adquirido por um colecionador argentino, recentemente esteve exposto em São Paulo, conforme foi amplamente noticiado pelos jornais. Assinale a alternativa correta.
a) Chama-se “Ababaçu” e é um dos melhores exemplos da técnica da aquarela da artista Anita Malfatti.
b) Foi pintado em 1929, chama-se “O Abaporu” e é de autoria da pintora Tarsila do Amaral, caracterizando-se como obra pertencente ao chamado movimento antropofágico.
c) É uma obra significativa apresentada na SAM de 22.
d) É uma obra polêmica, que provocou muitas discussões entre artistas e intelectuais.

17 Sobre a SAM, assinale V ou F:
1. ( ) O movimento modernista marcou a aproximação dos artistas brasileiros com a estética européia tradicional.
2. ( ) Ao apresentar os princípios da chamada arte moderna, a Semana de Arte Moderna marcaria uma importante ruptura cultural, que influenciaria a literatura brasileira moderna e a contemporânea.
3. ( ) Foi produzida por jovens artistas preocupados sobretudo em propagar os ideais do Futurismo.
4. ( ) Entre as propostas modernistas destacou-se, sobretudo na literatura, o engajamento com a história, em uma tentativa de se redescobrir a identidade do povo brasileiro.
5. ( ) Os modernistas, por levarem às últimas conseqüências a liberdade formal na escrita literária, desprezaram em suas obras o conteúdo.
6. ( ) O espírito acadêmico vigente na arte brasileira não contestou as propostas apresentadas na Semana de Arte Moderna.
7. ( ) O poema Os Sapos (de Manuel Bandeira), declamado durante a Semana de Arte Moderna, criticava os poetas parnasianos e a sua forma de fazer poesia.
8. ( ) Um dos objetivos dos promotores desse evento era escandalizar a sociedade, considerada retrógrada, reunindo um conjunto de obras e artistas inovadores.
9. ( ) A SAM queria lançar as bases de uma produção artística em moldes acadêmicos, pois no Brasil se valorizava tradicionalmente a produção cultural popular.
10. ( ) A SAM foi realizada no Teatro Municipal de São Paulo, apresentando novas idéias artísticas na poesia, na música e nas artes plásticas, com telas, esculturas e maquetes de arquitetura.
11. ( ) A SAM queria favorecer o contato com obras criadas na Europa, uma vez que no Brasil pouco se conhecia de arte, produzindo uma doutrina nos moldes europeus.
12. ( ) A SAM quis trazer ao País uma amostra das vanguardas européias, mediante a apresentação de obras de artistas estrangeiros.
13. ( ) Na principal noite da Semana, enquanto Menotti Del Picchia expunha as linhas e objetivos do movimento e Mário de Andrade recitava "Paulicéia Desvairada", eles foram aplaudidos de pé.
14. ( ) A Semana foi uma tomada de posição de jovens intelectuais paulistas a favor das práticas dominantes no país.
15. ( ) O programa do modernismo foi marcado pela rejeição das concepções estéticas e práticas artísticas românticas, parnasianas e realistas.
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18. Sobre a SAM podemos dizer que:
a) O romance regional assumiu características de exaltação, retratando os aspectos românticos da vida sertaneja.
b) A escultura e a pintura tiveram seu apogeu com a valorização dos modelos clássicos.
c) O movimento redescobriu o Brasil, revitalizando os temas nacionais e reinterpretando nossa realidade.
d) A preocupação dominante dos autores foi com o retratar os males da colonização.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Modernismo e Metalinguagem

1. Leia o que disse João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, sobre a função de seus textos:

“Falo somente com o que falo: a linguagem enxuta, contato denso; falo somente do que falo: a vida seca, áspera e clara do sertão; falo somente por quem falo: o homem sertanejo sobrevivendo na adversidade e na míngua. Falo somente para quem falo: para os que precisam ser alertados para a situação da miséria no Nordeste.”

Para João Cabral de Melo Neto, no texto literário,

a)a linguagem do texto deve refletir o tema, e a fala do autor deve denunciar o fato social para determinados leitores.
b)a linguagem do texto não deve ter relação com o tema, e o autor deve ser imparcial para que seu texto seja lido.
c)o escritor deve saber separar a linguagem do tema e a perspectiva pessoal da perspectiva do leitor.
d)a linguagem pode ser separada do tema, e o escritor deve ser o delator do fato social para todos os leitores.
e)a linguagem está além do tema, e o fato social deve ser a proposta do escritor para convencer o leitor.

2. Do pedacinho de papel ao livro impresso vai uma longa distância. Mas o que o escritor quer, mesmo, é isso: ver o seu texto em letra de forma. A gaveta é ótima para aplacar a fúria criativa; ela faz amadurecer o texto da mesma forma que a adega faz amadurecer o vinho. Em certos casos, a cesta de papel é melhor ainda. O período de maturação na gaveta é necessário, mas não deve se prolongar muito. ‘Textos guardados acabam cheirando mal’, disse Silvia Plath, (...) que, com esta frase, deu testemunho das dúvidas que atormentam o escritor: publicar ou não publicar? guardar ou jogar fora?
(Moacyr Scliar. O escritor e seus desafios.)

Nesse texto, o escritor Moacyr Scliar usa imagens para refletir sobre uma etapa da criação literária. A idéia de que o processo de maturação do texto nem sempre é o que garante bons resultados está sugerida na seguinte frase:
a) “A gaveta é ótima para aplacar a fúria criativa.”
b) “Em certos casos, a cesta de papel é melhor ainda.”
c) “O período de maturação na gaveta é necessário, (...).”
d) “Mas o que o escritor quer, mesmo, é isso: ver o seu texto em letra de forma.”
e) “ela (a gaveta) faz amadurecer o texto da mesma forma que a adega faz amadurecer o vinho.”

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Drummond

Texto I: Confidência do Itabirano (Drummond)

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
Vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

1. De que palavra se utiliza o poeta para mostrar que ter nascido em Itabira o fez diferente?

2. Por que ele diz ser “de ferro”? Em que outro sentido estão também usadas estas palavras no poema?

3. O poeta guardou de Itabira a lembrança das noites em claro, de uma vida sem distrações e sem perspectivas. Que verso exprime isso?

4. Que espécie de sentimento quis o poeta exprimir com os versos relativos à fotografia de Itabira?


5. Depois de falar em orgulho o poeta fala em cabeça baixa. Esta expressão denuncia a existência também de um sentimento oposto ao orgulho. Que sentimento é esse?


Texto II: Os Ombros Suportam O Mundo (Drummond)
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

6. Em três versos o poeta exprime sua recusa em aceitar o amor apenas do homem pela mulher. Que versos são esses?

7. Em que verso o poeta resume os grandes problemas que afligem o mundo atual?

8. Como o poeta se refere àquele que se recusam a enfrentar a realidade que os cerca?

9. Embora sozinho e nada mais esperando da vida, o poeta parece enxergar uma luz de esperança na escuridão. Em que verso ele exprime isso?

10. Que expressão é usada para sugerir que o peso dos problemas que o cercam não o abate?

Texto III: Mãos Dadas (Drummond)
Não serei o poeta se um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
A vida presente.

11.“Não serei o poeta de um mundo caduco”.Que sentimento tem o adjetivo caduco nesse verso?

12. Transcreva do texto o verso em que o eu lírico expressa claramente seu desejo de solidarizar-se com os homens e não de isolar-se.

13.O que há de comum entre “mundo caduco” e “mundo futuro” para que o eu lírico se recuse a cantá-los?

14. Transcreva os versos em que o eu lírico se recusa a usar a poesia como simples expressão sentimental do seu mundo interior