terça-feira, 29 de março de 2011

A história da literatura brasileira é uma história de péssimos amantes. Tem-se a constante de que o amor jamais dá certo, nunca chega a bom termo, e de que os amantes são todos uns grandes incompetentes. Há mais história de desencontros e tragédias do que história de felicidade. A história do amor – e não só na literatura brasileira, mas na literatura universal, e, de modo geral, em todas as culturas – não é apenas a história do amor, mas a história do medo de amar.



SANT’ANA, Affonso Romano de. Poesia brasileira: uma trajetória do desejo. In: Op. cit., nota n. 9 (p. 86)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O medo que gera violência


Texto I: A Morte do Leiteiro (Drummond)


A Cyro Novaes
Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.
Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.
E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.
Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.



Texto II:  Arma de fogo e raiva transformam empresário em assassino

Adão Barbosa ainda não sabia, mas a decisão de comprar uma arma por R$ 500,00 em 2005 mudaria a vida dele e tiraria a de outra pessoa, três anos depois.
Sem porte de arma, o empresário da construção civil explica que comprou o revólver como forma de defesa, jamais imaginou que tivesse que usá-lo, mas matou ontem o pedreiro Francisco dos Santos da Silva, no bairro Canguru.
Barbosa conta que deixou-se levar pelo nervosismo durante um protesto na Rua Katinguá. Os moradores haviam fechado a via em manifestação contra a violência no trânsito. "Fiquei com medo, cercaram o carro, quebraram os vidros de uma caminhonete. Disse que iria atirar para o chão, nem vi onde acertei", recorda emocionado.
O comerciante explicou que até a tarde de ontem desconhecia os motivos do protesto. Também não conhecia Francisco dos Santos Silva, de 37 anos, o pedreiro que ele matou.
Pai de três filhos, Barbosa deseja o impossível: "voltar no tempo", e conforma-se apenas em imaginar como seria o encontro com a família do pedreiro morto. "Eu pediria desculpas, muita, muita, muita".
Manifestação - As pessoas que participaram do protesto na noite de terça reivin dicavam uma lombada eletrônica como forma de reduzir a velocidade dos carros na via, depois que três acidentes assustaram os moradores.
Apesar da tentativa de conter a violência no trânsito, e pela paz, acabaram presenciando um assassinato.
Hoje, mais um acidente mostrou que os morador es têm motivo para prot estar. Ou tra co lisão deixou uma mulher ferida.
Ana Macedo, 39 anos, foi socorrida pelo Samu (Serviço Móvel de Atendimento de Urgência), mas o motociclista que a atropelou fugiu.

Fonte: Campo Grande News

Interpretação


Texto I:


1. Você acha justa a afirmação de que “ladrão se mata com tiro”? Quais os prós e contras desta afirmação?


2. Embora o leiteiro procurasse entregar o leite de modo a não fazer barulho, de vez em quando topava com vários        obstáculos, interrompendo o silêncio. Cite alguns.

3. “E há sempre um senhor que acorda, resmunga e volta a dormir.” Por que naquela madrugada um morador acordou em pânico?

               4. Que expressão mostra que o morador pegou o revólver com rapidez e sem pensar no que estava fazendo?

              5. O homem se sentiu culpado pela atitude impensada que tomou? Que frases ou expressões comprovam isso?

6.  O texto explora a temática do medo da violência das cidades. A expressão "luta brava da cidade" faz referência a que elementos e situações da vida moderna?

7. No momento da morte do leiteiro, o leite (branco) mistura-se com o sangue (vermelho) criando uma nova tonalidade, que representa a cor da aurora. O que a imagem deste amanhecer representa no final do texto?


                 Texto II:


             8. O Texto II é fição (invenção) ou realidade? Justifique sua resposta.

             9. Qual é o objetivo deste texto: informar ou entreter?

10. Um protesto contra violência no trânsito acabou gerando um caso de morte. Isto aconteceu por quê? Que motivos levaram o empresário a usar sua arma?






Agora é um ótimo momento para sistematizar as características da linguagem poética (Texto I) e da linguagem jornalística (Texto II). Vamos preencher o quadro abaixo refletindo sobre as diferenças e semelhanças existentes entre os dois textos:


Diferenças

Texto I
Texto II














Semelhanças





domingo, 29 de agosto de 2010

Estranhamento do Objeto



Existe uma brincadeira com a linguagem, um exercício chamado estranhamento do objeto, que ajuda a aguçar os sentidos, a torná-los mais “afiados” para perceber a realidade. Funciona assim: escolhemos um objeto qualquer para descrever, isto é, para explicar como ele é, mas fazendo de conta que é algo estranho, por isso não podemos indicar o nome dele, nem dizer claramente para que ele serve. Observando as características do objeto que podem ser percebidas pelos sentidos – cor, som, cheiro, sabor, textura, etc.  – e usando a imaginação, vamos oferecendo dicas, pistas e informações indiretas para o leitor.
Como exemplo, leia o texto abaixo e tente identificar o objeto descrito. Quando você descobrir o que é, não diga nada a seus colegas; espere até que eles também cheguem a uma conclusão.


“Na maioria das vezes tenho a forma de um tijolo. Claro que não sou tão grande quanto ele.
Sou uma casa, com muitos habitantes bastante magros e de cabelos negros.
Geralmente sou escura e em uma de minhas paredes possuo um painel colorido, cobrindo-me inteirinha. Em outras duas paredes, possuo algo parecido com lixas, que são verdadeiras armas contras meus habitantes. Se esbarram com força nelas, eles morrem, soltando um cheiro característico.
Não custo caro. Aliás, acho quase impossível viver sem minha presença. Sou muito útil em qualquer lugar, em qualquer parte do mundo. Mas ninguém me dá o devido valor: cada habitante meu que morre é simplesmente jogado fora.”

Agora é você quem tentará criar um texto usando o método do estranhamento do objeto. Escolha um objeto que você quiser, mas não revele aos colegas a sua escolha.
Faça uma lista identificando as características mais interessantes ou importantes do objeto que você escolheu.
Procure associar estas características aos sentidos (cheiro, cor, som, sabor, textura, etc.)
Se possível, use comparações; elas são uma boa forma de apontar uma característica de um objeto, sem revelar o nome dele. Para descrever uma bola de futebol, diga:  “Esse objeto parece uma lua.”
Lembre-se de que as informações precisam ser indiretas, senão o leitor descobre muito facilmente qual é o objeto.


terça-feira, 10 de agosto de 2010

O amor acaba

Paulo Mendes Campos


O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania1 da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
1. No sentido literário, epifania é um momento privilegiado de revelação quando ocorre um evento que "ilumina" a vida da personagem.
O amor acaba - Crônicas líricas e existenciais. 2ª- ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

Ser brotinho




Paulo Mendes Campos



Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e superior. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos enormes como se fosse uma decoração, um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que os coroas levam a sério, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. Aguardar na paciente geladeira o momento exato de ir à forra da falsa amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, demais, revirando-se no chão como dançarina no deserto estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema, mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballet e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa eblue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.
O cego de Ipanema. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1960.

Crônica e tipos de crônica

Uma crônica é uma narração, segundo a ordem temporal. O termo é atribuído, por exemplo, aos noticiários dos jornais, comentários literários ou científicos, que preenchem periodicamente as páginas de um jornal.
Crônica é um gênero literário produzido essencialmente para ser veiculado na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas páginas de um jornal. Quer dizer, ela é feita com uma finalidade utilitária e pré-determinada: agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que o lêem.
A crônica é, primordialmente, um texto escrito para ser publicado no jornal. Assim o fato de ser publicada no jornal já lhe determina vida curta, pois à crônica de hoje seguem-se muitas outras nas próximas edições.
Há semelhanças entre a crônica e o texto exclusivamente informativo. Assim como o repórter, o cronista se inspira nos acontecimentos diários, que constituem a base da crônica. Entretanto, há elementos que distinguem um texto do outro. Após cercar-se desses acontecimentos diários, o cronista dá-lhes um toque próprio, incluindo em seu texto elementos como ficção e fantasia, elementos que o texto essencialmente informativo não contém. Com base nisso, pode-se dizer que a crônica situa-se entre o Jornalismo e a Literatura, e o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia.
A crônica, na maioria dos casos, é um texto curto e narrado em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está "dialogando" com o leitor. Isso faz com que a crônica apresente uma visão totalmente pessoal de um determinado assunto: a visão do cronista. Ao desenvolver seu estilo e ao selecionar as palavras que utiliza em seu texto, o cronista está transmitindo ao leitor a sua visão de mundo. Ele está, na verdade, expondo a sua forma pessoal de compreender os acontecimentos que o cercam. Geralmente, as crônicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a linguagem oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê.
Em resumo, podemos determinar cinco pontos:
Narração histórica pela ordem do tempo em que se deram os fatos.
Seção ou artigo especial sobre literatura, assuntos científicosesporte etc., em jornal ou outro periódico.
Pequeno conto baseado em algo do cotidiano.
Normalmente possui uma crítica indireta.
Muitas vezes a crônica vem escrita em tom humorístico.

Tipos de Crônica

Crónica Descritiva
Ocorre quando uma crônica explora a caracterização de seres animados e inanimados em um espaço, viva como uma pintura, precisa como uma fotografia ou dinâmica como um filme publicado.

Crônica Narrativa
Tem por eixo uma história, o que a aproxima do conto. Pode ser narrado tanto na 1ª quanto na 3ª pessoa do singular. Texto lírico (poético, mesmo em prosa). Comprometido com fatos cotidianos ("banais", comuns).

Crônica Dissertativa
Opinião explícita, com argumentos mais "sentimentalistas" do que "racionais" (em vez de "segundo o IBGE a mortalidade infantil aumenta no Brasil", seria "vejo mais uma vez esses pequenos seres não alimentarem sequer o corpo"). Exposto tanto na 1ª pessoa do singular quanto na do plural.

Crônica Narrativo-Descritiva
É quando uma crônica explora a caracterização de seres, descrevendo-os. E, ao mesmo tempo mostra fatos cotidianos ("banais", comuns) no qual pode ser narrado em 1ª ou na 3ª pessoa do singular.

Crônica Humorística
Apresenta uma visão irônica ou cômica dos fatos apresentados.

Crônica Lírica
Linguagem poética e metafórica. Expressa o estado do espírito, as emoções do cronista diante de um fato de uma pessoa ou fenômeno.No geral as emoções do escritor.

Crônica Poética
Apresenta versos poéticos em forma de crônica.

Crônica Jornalística
Apresentação de aspectos particulares de noticias ou fatos. Pode ser policial, esportiva, etc.

Crônica Histórica
Baseada em fatos reais, ou fatos históricos.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Figuras de Linguagem (resumido para o Curso Normal)

A linguagem científica prima pela exatidão, pela precisão, pela correção, pela objetividade. O texto literário, no entanto, se marca por desvios em relação ao significado das palavras ou às próprias construções.


Por apresentar desvios, que também são conhecidos como figuras, diz-se que a linguagem usada pela literatura é figurada. É isso que vamos estudar nessa parte do livro. Para tal, dividimos essas figuras em grupos.



 Metáfora (e suas variações)

Um homem, ao dirigir-se a uma mulher, diz: “Você é o sol da minha vida.”

Considerando que mulher não é sol, percebe-se que esta palavra (sol) está em sentido conotativo, ou seja, figurado. O que ele quer dizer pé que ela “o ilumina”, “o orienta”, “o aquece”, “é o centro de seus interesses”, “o mantém em órbita”...

Enfim, ele se coloca como um planeta, para o qual o sol é o próprio sentido e motivo da existência.

A esse processo de criação lingüística, que envolve uma comparação implícita, dá-se o nome geral de metáfora.

Vamos, agora, ver as figuras de linguagens mais comuns.


Metáfora

Troca ou relacionamento de palavras em que há uma construção figurada baseada na semelhança, isto é, um critério subjetivo e de contexto intelectual (não aparece o termo comparativo)

“Qualquer ruído, dizia, era faca em seus ouvidos” (Marina Colassanti)


Símile ou Comparação

É parecida com a metáfora, porém apresenta o termo comparativo presente.

“Partiu-se meu rosto em chispas / como as estrelas num poço”.(Cecília Meireles)


Personificação ou prosopopéia

É um tipo de metáfora em que se atribui qualidade, ação ou condição humana a coisas ou seres não humanos.

“As grandes árvores nem se mexem, pois não dão confiança a essa brisa, mas as plantinhas miúdas ficam felizes”.(Aníbal Machado)


Hipérbole

É também uma variação da metáfora, mas seu nome indica que se baseia num exagero.

“Até nosso céu eles espanaram” .(João Cabral de Melo Neto)

“Não o vejo há milhões de anos.”


Eufemismo


Também é da família da metáfora, mas tem o objetivo de suavizar uma idéia desagradável ou grosseira.

“O meu último sono, eu quero assim dormi-lo:

- Num largo descampado...” (Vicente de carvalho)

Às vezes, o Eufemismo ganha um tom humorístico. A mesma idéia de morte é percebida em:

“Ele vestiu um paletó de madeira”.
 
 
Metonímia


É o segundo grande eixo das figuras semânticas. Diferentemente da metáfora, que se baseia num eixo de concentração, a metonímia se caracteriza por uma relação ou troca de palavras em que ocorra uma contigüidade, isto é, uma aproximação objetiva, devido à ocupação de espaços próximos no universo.


“Os olhos claros da mulher pediram-lhe com doçura...” (Carlos Drummond de Andrade)

“olhos” substituem “mulher”


Observe que se trocam (ou se relacionam) as palavras baseando-se na aproximação dentro do universo ou do contexto.

“Abriu uma torneira do banheiro para lavar o sono do rosto”.(Luís Fernando Veríssimo)

Há um tipo especial de metonímia que, na verdade, troca o “todo” por uma “parte”, que tem o nome de Sinédoque.

“O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford”.(Alcântara Machado)

 
Antítese


O que aproxima as palavras trocadas ou relacionadas é a oposição.

“Abaixo – via a terra – abismo de treva!

Acima – o firmamento – abismo de luz!” (Castro Alves)


Paradoxo

É a oposição de raciocínios, já que há ilogicidade na idéia.

“Estranha paixão: quanto mais ódio, mais amor.” (Fagundes Varela)


Ironia

É, com clara intenção, comunicar exatamente o contrário do que se diz.

“... o velho começou a ficar com aquela bonita expressão cadavérica.” (Stanislau Ponte Preta)


Atividades:

1. Classifique as figuras de linguagem presentes nos fragmentos abaixo:



a) Você é o sol da minha vida.



b) Seus olhos brilham como estrelas.



c) Esse homem é uma fera!



d) Meu coração é um almirante louco.



e) Já lhe disse isso um milhão de vezes.



f) A mocidade é um noivado.



g) Bebeu dois copos cheios.



h) Ele entregou a alma a Deus.


Texto 1: Receita de acordar palavras

Palavras são como as estrelas

facas ou flores

elas têm raízes pétalas espinhos

são lisas ásperas leves ou densas

para acordá-las basta um sopro

em sua alma

e como pássaros

vão encontrar seu caminho.

(Roseana Murray, em “Receitas de Olhar”)



2. Os dois primeiros versos se constroem por meio de um(a):

a) exagero

b) mentira

c) erro

d) gradação

e) comparação



3. Versos livres são os que não tem métrica, e brancos, os que não têm rimas. Analisando-se o poema, percebe-se que seus versos são:

a) livres e rimados

b) metrificados e brancos

c) livres e brancos

d) metrificados e rimados

e)impossíveis de confirmar



4. O tema do texto, é na verdade:

a) a própria poesia

b) a palavra

c) a alma das palavras

d) o caminho da vida

e) a vida em si



5. No título, há uma clara prova de que a linguagem do poema é literária. Assinale-a.

a) o uso denotativo do verbo acordar

b) a referência à palavra “palavras”

c) a presença da preposição “de”

d) o emprego conotativo da palavra receita

e) o não aparecimento do tema real do texto



6. “O sopro na alma das palavras” significaria, segundo o texto;

a) a forma poética

b) uso de metrificação adequada

c) a procura das melhores rimas

d) a mensagem que exprima o conteúdo

e) a intenção de sugestionar o ouvinte